sexta-feira, dezembro 14, 2012

Os Quatro na capital

Podíamos ser 5, mas o quinto seria sempre imaginário, ou apenas personagem de anedota.
Talvez a engenharia nunca o venha a determinar, mas na altura pareceu-me premonitório um qualquer fanhoso ter azar na vida, mesmo depois de a vida lhe ter sorrido.
Esta introdução apenas pode ser compreendida na sua essência pelos meus três companheiros de viagem do último fim‑de‑semana.
Tinha corrido tudo dentro de uma aparente normalidade até àquele momento em que o motor do carro, como as minhas pernas ao km 30 da maratona, se recusou a trabalhar. Não era muita a velocidade, 120, 130 no máximo, como tinha sido regular o meu ritmo até "gripar". A animação estava em alta, numa espécie de desafio com o Vitor Dias, que desgarradamente debitava anedotas sempre em resposta a alguma desafiante da minha parte. De repente, como um "muro", o motor calou-se. Ficámos ali, algures na Serrania de Fátima, até os pés da Marlene enregelarem por completo, fora do carro, atrás do rail de protecção, que os que passavam não abrandavam. Como na prova dessa manhã, lá veio um reboque, com pior aspecto que o carro (apesar de avariado) mas que o levou. Nós regressámos sãos e salvos num belo topo de gama, conduzido pelo Sr. Armando, homem dos seus 56, que depois de por o aquecimento nos 21 graus, avisou a patroa da inesperada incursão ao Norte, e da consequente ausência para jantar.
Animação foi coisa que não faltou. Nem no Sábado na viagem para Lisboa, nem na estadia. Tínhamos planeado ir de comboio, fomos de carro devido à greve dos maquinistas da CP ao trabalho em dias feriados; pedi para alterarem a reserva do hotel, de quarto quadruplo para duplo, quando chegámos tínhamos 4 camas. Planeamos deitarmo-nos cedo, deitamo-nos quase às 2 da manhã, depois de um animado jantar. Planeara fazer a maratona na ordem das 4 horas, saiu-me uma prova de 4h32. Imprevistos atrás de imprevistos tinha que haver mais algum. Foi a avaria.
A minha prova resume-se por um ritmo cuidadoso, agradável, com 1h57 à 1/2 maratona, na tentativa de o manter até à Almirante Reis. Com alguns minutos de avanço sobre as 4 horas, mesmo que vacilasse naquela subida, daria para controlar. Mas as pernas não queriam. Não era dia. Depois dos 23 kms comecei a sentir alguma fraqueza. Até aos 28 mantive o ritmo, à espera que passasse. Nada. Quando fiz o retorno pensei em desistir, tantas eram as cãibras. Faltavam-me 14 kms e parecia que correr era impossível. Encontro o José Guimarães, que animava por fora, diz-me para beber água, muita. Foi o que fiz, no abastecimento dos 30. Depois disso, aguentei-me com ele e uma amiga que ele então acompanhava num ritmo lento, mas que as minhas pernas não reclamavam. Aparece então, cerca do km 36, o Miguel Lopes, que acompanhei até final. O Miguel nasceu com pés botos. Depois de muitas operações e fisioterapia corrigiu minimamente o desvio ósseo, o que lhe permite caminhar quase normalmente. Quase. Depois de algumas aventuras na corrida, decidiu estrear-se na maratona. Eu ali a pensar desistir porque não ia fazer o objectivo, e aquele homem a superar a própria natureza. É disto que são feitos os maratonistas, de superação. Mesmo contra a adversidade lutámos. Com a impossibilidade de o Miguel correr em subida devido ao atrofiamento dos gémeos, lá fomos Almirante Reis acima, ele dentes cerrados e vontade imensa e eu pasmado com a garra daquele homem, que não mais larguei mesmo contra a sua vontade e com quem tive a honra de cruzar a meta. É de surpresas que a vida é feita. As maratonas são sempre uma incógnita. Nunca sabemos o que esperar delas. Confesso que não acabei muito animado, mas não é mais que um sentimento egoísta de quem quer sempre superar-se. Mas há alturas em que o motor para. Não há mais nada a fazer que não seja prepara-lo para outras viagens.
De surpresa em surpresa, com maior ou menor dificuldade, lá fomos a mais uma aventura. O Vitor Dias fez uma excelente prova, terminando mais uma maratona de forma brilhante, com 3h10. O Luis Pires, concluiu em 3h19, no top 20 do seu escalão, a sua 84! participação em maratonas e ultra maratonas. A Marlene não correu, dançou. E coloriu-nos a viagem. Foi um fim‑de‑semana agradável, com gente agradável, saudavelmente insana, que levou sorrisos à capital. Assim até as avarias passam despercebidas e compreendemos que o 13 é apenas um número (foi a minha décima terceira maratona) e tudo, mas mesmo tudo, é motivo para nos rirmos da vida, senão ela vai seguramente rir-se de nós.

quarta-feira, novembro 28, 2012

Endorfinite

Patologia crónica. Acho que há sintomas evidentes em muitos dos tontos que, como eu, trocam dias de praia por treinos na montanha, manhãs de Domingo na cama por longas corridas, ou noites à lareira por corridas polares, nas noites em que, como hoje, nem os carros abundam na rua.

Sabemos todos que, apesar do bem que possa saber qualquer uma das situações que referi, nenhuma se assemelha ao esplêndido sabor de sentir o suor a escorrer pela cara e quase a congelar, o vento que nos sopra ao ouvido, e a solidão de um fantástico treino à beira-mar, com incursões constantes na fantástica zona ribeirinha desta bela cidade invicta.

Sentimos sempre aquele reconfortante sabor a dever cumprido, e nem comentámos muito com os amigos que se ficaram pela lareira. Eles não iriam compreender. Dizem-nos doentes. Eu confirmo, é endorfinite. A dependência de endorfinas, a “droga” dos corredores.

sexta-feira, novembro 16, 2012

Meus amigos:

Ontem fui fazer séries à chuva. Não me apeteceu molhar muito, corri apenas 50 minutos, quase a trote (com algumas acelerações). Nada de novo, é o que eu faço habitualmente, Fartlek. Corro sempre assim, a brincar. Na Maratona do Porto, o Luis Rodrigues dizia-me, meio a brincar, muito a sério, que eu não me calava um minuto, tal era a animação que gerava à minha volta. Acho que é por isso que continuo sem me cansar (física e psicologicamente) da corrida. Vou correndo, sem me matar muito. Cerro os dentes quando dói muito, mas não provoco a dor. Corro sempre muito descontraído, com gosto e sem pressão.
Meus amigos: Vocês andam-me a preocupar. Desataram todos a fazer grandes provas, excelentes tempos, imensas cargas de treino. Agora, uns têm lesão aqui, dor acolá, cansaço acumulado. Outros correram uns tempos, desistiram. São os que experimentam, fazem umas provas, mas desistem. Tenho já uma longa lista de pessoas que acompanhei em treinos e provas e que abandonaram a corrida. É compreensível, alguns desiludiram-se com performances, outros não arriscam más performances, como se isso fosse obrigação, outros não têm disponibilidade, ou deixaram de a procurar. Lembrem-se, nascemos para correr, não devemos é correr para competir com o nosso corpo.
Corram por prazer.

segunda-feira, novembro 05, 2012

Free Running Gourmet

 

Rota das Tascas – A Via Sacra

- Pouco barulho, caralho! Foda-se… Ainda são 11 da manhã!

E à terceira das muitas tascas que visitámos, éramos finalmente recebidos à boa maneira tripeira, por uma anfitriã boavisteira assumida, tripeira famosa, não só pelo vernáculo mas também pelo aspecto que tradicionalmente tinha a tasca que lhe dá o cognome: A Badalhoca. A Dª Lurdes, depois do aviso, lá desatou a despachar os mais de 30 atletas, com sandes de presunto, rojões ou fígado de cebolada, entre outras iguarias, tudo regado com cerveja ou com o tradicional espadal. Não acalmou o burburinho, esse passou do interior para o exterior e passou a êxtase de quem aconchegava o petisco a espanto dos que por ali passavam ainda em registo matinal.

As tascas abundavam no Porto há alguns anos. O Moutinho, mestre do Trail Gourmet, e adepto confesso dos treinos em ambiente de convívio, onde todos correm juntos e em que a boa disposição reina, prepara com alguma frequência estes free-running, muitos deles na Cidade do Porto, levando quem o acompanha a descobrir recantos inimagináveis, que nos levam a correr por trilhos rurais enlameados  ou pelas escuras vielas e escadarias, passando por “ilhas” e parques urbanos. No passado Sábado os temas que escolheu foram as tascas e o cinema na Cidade Invicta. 
Com partida do Jardim de Arca D’Água, onde havíamos de chegar para o convívio final no “Escondidinho”, foram 26 kms em Via Sacra onde as Estações eram as tascas das Freguesias visitadas (Paranhos, Ramalde, Aldoar, Nevogilde e Foz).   
Das 9h (chuvosa) até às 14h (com tímido sol de Outono), foi um teste à resistência, onde só os mais fortes (leia-se com melhor fígado) resistiram. Houve alguns que corriam a um ritmo errático, uma espécie de fartlek, quando se aproximavam de mais uma tasca. Outros experimentaram abastecimentos variados para testar o nível de resistência ao lactato dos diferentes produtos analisados. Foi unânime a conclusão de que deveríamos repetir a experiência, para haver uma aferição mais credível dos resultados, mas o Moutinho, um anfitrião de eleição, avisou logo que, com ele, só gourmet. Experimenta-se uma vez guiado por ele, mas diz ser apologista da livre iniciativa.
Enfim, fico com esta experiência, mas dispenso a repetição em modo individual, até porque o que é bom deve ser partilhado.

Ficou a vontade de participar em mais encontros como este. Obrigado a todos por uma manhã de Sábado bem passada, onde a corrida, paixão que nos é comum, foi motivo para mais um excelente convívio de gente sã que invariavelmente se junta para esta espécie de “revisita” à liberdade.

segunda-feira, outubro 29, 2012

9ª Maratona do Porto

Muitos dos que começam a ler esta crónica não fazem ideia do que é correr 42 km. Muitos, como eu, não percebem como é possível alguém o fazer em pouco mais de 2 horas. Todos nos espantámos com os resultados, as proezas, as limitações e superações de todos.

Ontem, segundo a organização, foram mais de 5000 os participantes em mais uma edição da Maratona da Cidade Invicta, divididos entre a prova rainha, a Fun Race de 15 km e uma caminhada de 6 km.

A azáfama que se vive à partida destas provas é sempre muita. Os que se estreiam não escondem o nervoso miudinho, a ansiedade de começar e a vontade de acabar, os repetentes, muitos veteranos incentivam os apadrinhados, e os que vão correr a distância mais curta prometem entre dentes alinhar na maratona do ano seguinte. 

Dado o tiro de partida, lança-se a confusão. Uns que tentam chegar aos balões (levados por atletas experientes que marcam ritmos para tempos finais entre as 3 e as 4h, com separação de 15 minutos cada) que desejam acompanhar, outros que levam ritmos mais altos, por participarem na prova mais curta ou apenas porque sim.
Eu, que começava ali mais uma participação na minha cidade, a terceira, onde me estreara 2 anos antes, e que sabia o que me esperava, deixei-me ir com ritmo de aquecimento. Sem grandes veleidades a fazer um tempo excepcional, não só por ter feito 20 dias antes uma prova extremamente exigente, de 46 km em montanha, mas também porque o dia se apresentou com vento forte de leste, o que em nada ajudava a fazer bons tempos. Íamos todos sofrer e muito quando chegássemos à marginal. Mas ninguém sofre por antecipação, há que aproveitar o ambiente, a festa da corrida, a alegria contagiante de muitos dos anónimos que enchem as ruas nestas provas. Lá fui eu rumo a Matosinhos, uma excelente novidade no percurso da prova, que faz com que a ida ao Freixo, 7 km que eram penosos para quase todos, seja abolida. Esta novidade tem várias vantagens, além da referida, na minha modesta opinião. Uma delas é a de “colocar” entre os km 22 e 32 a zona de maior concentração de público, entre a Alfândega e a Afurada e respectivo retorno. Depois de passarem a 1/2 maratona, os atletas começam o percurso mais belo, por entre uma pequena multidão, com muitos estrangeiros que não se cansam de apoiar, e com imensos familiares e amigos que ali montam base de incentivos, que entra na zona pedonal da Ribeira e cruza a Ponte D. Luís rumo à margem sul, de onde se aprecia toda a beleza da cascata sanjoanina. Eu não me canso de a apreciar, mas ali, com a viragem a oeste, e com o vento pelas costas, podia finalmente aproveitar a força com que soprava e tentar manter um ritmo que não me fizesse baquear. Passagem ao km 25 com um speaker a incentivar os atletas, incansável, rumo à viragem na Afurada ao km 27. Nesta zona da marginal de Gaia, e graças às alterações no percurso, cruzam-se a grande maioria dos atletas de pelotão, podendo haver uma saudável troca de injeções de moral. O km 30, habitual “Monstro Adamastor” dos maratonistas, situa-se na entrada da Ribeira de Gaia, junto ao Cais, onde há a maior afluência de gente, ainda por cima ao Domingo, cujo espaço está normalmente ocupado por uma pequena feira de artesanato, fazendo com que sejam poucos os que soçobram à inevitável fadiga acumulada. Nova rampa para a ponte, uma pequena viragem a Este, com pouco mais de 1 km e entrada no túnel da Ribeira. O piso em paralelo, a repentina escuridão ou apenas o cansaço, fizeram-me parar. Km 32, o meu muro. Já todos temos técnicas de o contrariar. Peguei num gel, comi-o, bebi uma pequena garrafa de água enquanto fazia o percurso do túnel a passo, saio da escuridão, volto a colocar os óculos de sol e “siga, que para a frente é que é caminho”, disse para mim mesmo. Depois daquele km a 6’30, não mais baixei dos 5’45 até ao km 35. Ali, no abastecimento, peguei num copo de isotónico e em duas garrafas de água e segui a passo. Poucos metros à frente, ainda estava a beber a água, aparece-me o João Mota Freitas, da minha equipa, com  o habitual “vamos lá Rui, anda connosco, vamos a 6’, devagar, anda”, fui. Pouco depois foi ele que teve de ficar com mais 3 colegas de equipa. A maratona é uma prova de superação, camaradagem, para a qual é necessário muito treino, mas é principalmente um desafio mental. O corpo fala, a mente contraria ou acompanha. Este ano, ao contrário do ano passado, só tive de lutar contra a fraqueza do corpo, não tive cãibras, ao contrário do João, nem nenhuma lesão que me forçasse a parar. Correr “em casa” tem as suas vantagens, há sempre alguém que nos incentiva, aparece sempre algum conhecido, ou então alguém que desconhecemos e que ali se transforma num apoio tão inesperado como precioso.
Até ao km 38, junto ao Passeio Alegre foi uma luta com o cansaço, dali para a frente foi a mente a comandar. Av. Brasil e os seus intermináveis 2 km, a viragem para a Avenida da Boavista e que boa vista aquela do pórtico laranja que assinala os 42 km. Aqui, já com a companhia da Célia Nuno, da equipa da Filipa Vicente, que se estreou finalmente, depois da desistência por lesão o ano passado. A Célia, que começou a prova comigo, com quem eu troquei algumas palavras aos 40 minutos de prova e com quem tive o privilégio de terminar, e que eu não vira durante mais de 3 horas, tinha-me dado uma outra dica que muitas vezes descurámos: A alimentação. “De 40 em 40 minutos”, disse-me. Foi o que fiz e resultou. Muitas vezes, fraquejámos por falta de alimentação sem o sabermos. Para quem corre mais de 3 horas é fundamental começar a ingerir alimentos antes de ter fome, muito antes. Tenho que lhe agradecer o alerta e a felicitar, bem como à Filipa Vicente pelas excelentes estreias.
Acabei com 4h03 de tempo oficial, menos 3 minutos que o ano passado, em condições menos vantajosas para as minhas características de baixar das 4 horas. O vento forte de leste que se fez sentir na maioria dos kms da parte inicial da prova e principalmente em toda a marginal do Rio, é dos principais handicaps para alguém da minha estrutura, alto e pesado. Fiquei feliz por ter terminado mais uma maratona, por ter acabado com saúde suficiente para correr um pouco mais e com vontade de estar à partida em muitas mais edições da maratona da minha cidade.

A organização esteve à altura dos pergaminhos, sem falhas nos apoios necessários, com excelentes speakers instalados nos pontos mais críticos, e com uma excelente escolha de percurso. Os muitos músicos (?) espalhados ao longo do percurso bem se esforçaram, mas pareceram-me nitidamente desfasados de uma qualquer play-list para a maratona. Entre grupos de música brasileira e outros de covers havia uma heterogeneidade estranha que não encaixava. 
O ponto negativo constatei-o depois de finalizada a prova, já depois do brinde com o João Meixedo que me esperou com um copo de cerveja, quando descobri o saco com os meus pertences no meio de um passeio no chão. Os sacos dos atletas estavam em duas tendas, assinaladas como sendo da Maratona ou da Fun Race, todos amontoados, sem supervisão os da Fun Race, e muitos espalhados fora das ditas tendas. Surreal. Para quem está habituado a organizações tão cuidadas, não pode descurar um dos pontos mais importantes de uma corrida destas. O acesso aos sacos devia estar vedado ao público, ao contrário de ser colocado fora da zona de meta. Parece-me menos importante o bacalhau para os Vip’s do que a segurança dos pertences daqueles que confiam na organização para os guardar enquanto correm uma prova que pagaram com esse serviço incluído. Um erro a corrigir.

Foi mais uma Maratona a somar às 11 já concluídas, 6ª de estrada.

Quero agradecer a todos os que me apoiaram durante a prova, enaltecer todos os que a completaram, especialmente os estreantes, que merecem sempre a nossa admiração. Porque, como dizia no início desta prosa, 42 km é uma distância avassaladora para percorrer. É uma violência para o corpo, mas um excelente tónico para a mente. Dificilmente um maratonista verga perante um desafio. O ser capaz de contrariar todas as dificuldades, de superar todas as fraquezas, faz-nos a todos querer chorar de alegria depois de cruzar a meta. Como na vida, na corrida vencem os fortes. E aqueles que vencem as suas fraquezas, são os principais vencedores destas provas. Imaginem o que será mais difícil: Fazer 42 km em pouco mais de 2 horas ou os mesmos 42 km em quase 6 horas, só com uma ambulância como companheira e com todas as probabilidades contra o facto de poder terminar? Nenhuma é fácil e todos nos sentimos enormes quando conseguimos cruzar a linha de chegada.

"A dor é passageira, mas a glória de se alcançar um objetivo é eterna" 

terça-feira, outubro 16, 2012

A história de 50 kgs

 

Este texto foi prometido a uma amiga ainda em Agosto. Pedia-me que descrevesse as minhas motivações, o que me tinha levado à perca de peso que iniciei mais a sério há quatro anos, e quais as mudanças mais significativas nas minhas rotinas diárias. Engloba tudo isso.

Tendo por recorde 36 rissóis (de carne) numa só refeição aos 12 anos, quando estava de dieta por suspeita de apendicite (as desculpas que eu arranjava para ir para a enfermaria do seminário no Inverno…(Sim, eu andei num seminário)), alguns 30 Bollycaos (aquecidos com manteiga), depois de desafiado por alguns amigos numa noite de copos, aos 19/20, altura em que, quando os outros iam aos panados à Mobil (bomba de gasolina de uma marca já extinta, que ainda existe na Avenida dos Combatentes, ali para os lados das Antas) eu comia um, muitas vezes dois Dan Cakes de chocolate (sim daqueles de 400g), era certo e sabido que havia de chegar a obeso. Não foi logo, mas aos 25 anos, quando deixei de jogar futebol de 11 e passei exclusivamente ao Futsal, e que coincidiu com o fim dos treinos de ginásio, rapidamente os meus maus hábitos alimentares me levaram a aumentar de peso.

gordofutsal

(Futsal, esse desporto de sofá)

Foram em média 5 kg por ano. Parece pouco, mas em 10 anos, levou-me à estupidez de não poder baixar-me para apertar os cordões. Nunca me senti infeliz. Sou de riso e piada fácil, tenho por hábito andar bem disposto, a minha profissão implica contactos permanentes com muitas pessoas, em muitos lugares do País e de outros países, o que proporcionava sempre repastos fartos e completos, onde se ultimavam negócios ou se reconfortavam parcerias.
Um dia fui comprar um fato. Era grande. Mas os fatos são sempre grandes, nada de alarmante. Comprei umas calças. 60. Fui-me pesar e vejo 137 kg. Assustei-me.

Godo

(Sim, sou o da direita)

Assim, dificilmente não teria complicações de saúde em breve. A juntar a tudo isto era fumador. Tinha no tabaco um amigo, um companheiro de viagens, um reconfortante escape para o frio, para o calor, para a cerveja geladinha, para o copo de vinho, para tudo. Comecei então uma nova tentativa de dieta. Já tinha tentado algumas. Tinha havido uma altura em que ia para a piscina diariamente. Durante uns meses dediquei-me à natação. Fazia 60 piscinas de 25 mt na especialidade bruços. Emagreci, mas pouco. Veio a Primavera, a piscina era muito quente, um ambiente fechado, preferia o mar. Mas o mar era frio. Deixei e esqueci. Continuava o futsal. E voltei ao volume normal. 
Um dia, vendo uma amiga emagrecer, perguntei-lhe o que fazia. Apresentou-me uma marca de batidos substitutos de refeição. Durante um ano fiz religiosamente a substituição do jantar por um batido. Perdi 8 kg. Ao fim de um ano deixei de fumar. Foi há 4 anos. Com medo de recuperar o peso perdido comecei a correr. Comprei equipamento adequado, e todos os dias corria 4 km, normalmente de madrugada, às vezes a altas horas da noite, sempre de maneira que não me vissem. Admiro as pessoas gordinhas que correm desavergonhadamente. Mas parecia-me melhor ter de correr tão lentamente com poucas testemunhas. 
A corrida levou-me às escolhas acertadas dos alimentos. É inevitável. Quando começamos a correr, consultámos sites de corrida, compramos revistas, equipamento, chegámos a trocar impressões anonimamente em sites de corrida, e depois, inscreve-mo-nos em provas. Foi o que eu fiz um dia. Numa prova de 7 km. Fui, fiz a prova, fui desafiado por um amigo a fazer uma 1/2 maratona e treinei para ela. Achei-me um atleta depois de a concluir (ainda com mais de 115 kgs. Um ano depois fazia a minha primeira maratona, aí já a rondar os 100. Peso neste momento 85 kg, e já completei 5 maratonas de estrada e 6 ultras de montanha. 
Desde o início deste ano que ando entre os 83 e os 87. Peso o mesmo que há 20 anos, mas com muito mais qualidade de vida. As loucuras à mesa moderei-as, o tabaco deixei-o definitivamente e o exercício físico tornou-se num saudável vício e num escape ao bulício do dia-a-dia. As minhas escolhas alimentares são as que me permitem ter mais saciedade, embora fure muitas vezes a dieta exemplar do atleta. E não sou caso único. Saber o que comer é fundamental, comer aquilo que nos dá prazer também. Só não o faço todos os dias, ou todas as semanas. Mas não abdico de uma francesinha de vez em quando, ou do bolo de bolacha da minha mãe (com creme de manteiga, perfeito), ou mesmo de um repasto típico português em ocasiões especiais. Evito os excessos mas não excluo alimentos. Os erros não passam de prémios. É tudo uma questão de equilíbrio.

A vida é equilíbrio. Eu encontrei o meu. E se eu, com um histórico tão “pesado” consegui, só não consegue quem não tentar e não quiser insistir. São muitos os momentos em que queremos desistir, as tentações são muitas, há sempre desculpas para não fazermos aquilo que sabemos ser o mais acertado. O fatídico “é só desta vez” é o erro mais comum e usual de quem quer e precisa de perder peso. Durante muito tempo evitei excessos e alimentos que eu sabai me iam atrasar o equilíbrio que me levaria ao peso minimamente aceitável para poder almejar o sonho de correr uma maratona. Durante o período de treinos menos intensos tenho o cuidado de compensar com muita atenção ao que como, fazendo uma contabilidade dos erros ao pormenor de não excederem as escolhas acertadas. Uma boa forma de os evitar é, quando os estamos quase a cometer, comer uma peça da fruta que mais gostamos, ou um punhado de frutos secos. Normalmente, a vontade de comer um doce é apenas uma indução do cérebro a mostrar-nos o caminho mais curto para acalmar a “fome”, o açúcar. Aprendendo a contornar este impulso, facilmente se perde algum peso. O resto é disciplina e exercício físico. O nosso corpo está tão bem feito, que sempre que o fazemos ficámos com um sorriso rasgado, por mais que soframos. A vida de hoje em dia é tão sedentária que é fundamental o exercício. O resto é a motivação de todos os que reparam na nossa perda de peso e nos vão dando injecções de motivação para não voltar atrás. Sempre com metas alcançáveis, sem desesperar e de preferência com acompanhamento por um profissional. E idealmente devemos publicitar a nossa luta, para sermos ajudados e incentivados pelos que nos rodeiam. Vamos ter tentações toda a vida e a principal é aquela altura em que achámos que já não voltámos atrás. Conheço imensos casos, espero não ser um. E desejo o mesmo a quem, como eu, se decidir a travar uma luta contra o peso.
Estarei sempre aqui para ajudar no que puder.

Obidos

(Foto Ultra Trail Nocturno Lagoa de Óbidos, Agosto 2012, 50 Km)

Daqui a umas horas chego aos 40 anos. Não podia ter escolhido melhor prenda. Saúde, vontade de continuar esta luta permanente e acima de tudo, gozar esta capacidade de me surpreender todos os dias, de poder suplantar sempre mais um obstáculo, de, como na corrida em que, quando estamos cansados nos limitamos a colocar um pé em frente ao outro, poder viver um dia de cada vez, sem a sensação de eternidade, mas com a consciência do fútil e do acessório em contraponto ao mais importante: Viver. E um obeso não vive, desespera por poder usufruir da vida que está para lá da comida. É um escravo da comida.

Obrigado a todos vós que me ajudam permanentemente neste caminho. Todos são determinantes e importantes para mim. Em todos encontro motivação para me suplantar. Em todas as vitórias, por pequenas que vos pareçam, e que sempre mas fazem sentir grandes, é um enorme passo na estabilidade desta forma de vida que desejo nunca abandonar. Não há dia que não recorde o meu eu que ficou para trás. Este de hoje é mais feliz, também graças a todos vós.

Obrigado!

quarta-feira, outubro 10, 2012

Grande Trail Serra D'Arga

5h30 da manhã. Acordo sobressaltado pela eminente explosão de todos os músculos das pernas. Enfio-me na banheira, encho-a de água fria, e acrescento todo o gelo existente no exíguo congelador do frigorifico.
Mas que raio! Devo ser caso grave de patologia clinica, eventualmente de índole psiquiátrica. Quem é que no seu perfeito juízo, depois de 14 dias ocupados a recuperar de um entorse no pé, salta de pedra em pedra, por rios e montes, durante mais de 10 horas? Só um louco, ou alguém em forte aceleração para um estado de insanidade mental completa.
As pernas teimavam em borbulhar, num efeito conhecido por todos os que já atingiram um dia o limite de resistência muscular, ou o lactato, ou outra coisa qualquer. Cenas técnicas que a mim não me assistem. A mim só me calha a parte de tentar tornear o mau estar que causa.
Revivo por momentos as emoções singulares de mais uma aventura de montanha. Esta tinha sido mal preparada, devido à lesão de última hora, mas ansiada pela abrupta interrupção do ano anterior, aos 21 km por o estado do tempo não permitir a progressão em segurança de todos os atletas. A julgar pelo que vi este ano, foi muito sensata e acertada tal decisão.
Fui para a prova na esperança (vã) de a acabar. Sabia que 14 dias com apenas uma corrida de pouco mais de 10 k era muito pouco para poder apanhar com tanta montanha. Mas arrisquei. Ia tentar compensar a falta de treino com a determinação.
Parti com calma. Fiz os primeiros 15 kms num ritmo agradável. A primeira subida é dura, mas faz-se bem, e o resto do carrossel também se passa em ritmo agradável. A partir daqui a zona que eu mais temia, o rio. Este troço mais técnico, devido à instabilidade do pé, e o medo de reincidir na lesão, fizeram-me atrasar bastante, mas nada que não esperasse. Entre escorregadelas e tombos na lama lá passei o Pincho e as suas fantásticas quedas de água. Chegado a S. Lourenço da Montaria, onde estava a meta da prova mais curta e um abastecimento, primeira avaliação do estado do esqueleto e ponderação "desisto, não desisto...?", optei por seguir. O Manuel Veloso e o Rui Cunha, colegas do Porto Runners, estavam parados uns 500 mts acima do abastecimento e ponderavam o mesmo. Um com cãibras outro com um traumatismo na anca por queda, sentiam-se inferiorizados e com poucas condições para prosseguir. Sentamo-nos os 3, dei um Voltaren Rapid ao Rui e convenci-os a seguirmos juntos. Conhecia a subida, sabia-a dura, mas mais pela distância. Podíamos apoiar-nos mutuamente. Lá fomos. Já aos 25 kms, junto às eólicas, avistamos o "vassoura" (o Telmo Veloso assegurou a tarefa na segunda metade) junto com a Analice. Estávamos em nítida perda, mas com ânimo redobrado. Vinha aí uma descida. Ao chegar ao km 26 deparo-me com mais de uma dezena de corredores, animei-me, pensei que afinal não estava muito lento, havia um grupo grande. Puro engano, era um cruzamento com os 34 kms onde já vinham os que já tinham descido ao Cerquido e voltado a subir à Sra. do Minho. "Subida duríssima Rui", diziam-me o Carlos Madureira e a Flor que de lá vinham. Um elemento da organização que ali estava, animou-nos e aconselhou-nos a abastecer bem e apreciar a dureza e beleza daqueles 8 kms que se seguiam. A descida para o Cerquido foi rápida. Esquecera-me de cortar as unhas (que preciosismo) que agora ia arrancando enquanto recordava todos os pormenores da prova. Deitado na banheira, com os pés ainda massacrados lembro aquela descida e a vontade de as arrancar em plena prova. Chego ao abastecimento dos 29 kms, sento-me a uma sombra e, enquanto comia a sande de presunto que levava na mochila, pensava se ia ter pernas para subir novamente tudo aquilo. Ponderei seriamente mais uma vez desistir. 10 minutos depois chegam os meus companheiros de subida. Pouco depois o Telmo e a Analice e mais um atleta. Éramos os últimos. Saímos juntos. Na subida do Cerquido, onde o Carlos Sá faz séries, a Analice ultrapassa-me. Olho para baixo e vejo os outros 3 mais o Telmo. O Manuel Veloso, que sentia cãibras a descer, a subir revigorava-se e, entretanto, também me ultrapassava. Fiz um esforço, serrei os dentes e lá fui atrás dele. Entretanto um atleta dos Amigos da Montanha também me alcança. Que mal estava. Sentia os músculos das pernas a ferver. A subida era em calçada romana muito antiga, a vista sobre o Vale do Lima era de uma beleza insofismável e o dia estava solarengo. O vento, de Sul a anunciar mudança, em cada viragem do caminho, ora soprava por trás e ajudava, ora soprava de frente e refrescava. No alto, em cima de umas rochas, uns vultos aguardavam-nos. Eram mais voluntários da organização (inexcedíveis, simpáticos, solícitos, do melhor que se pode ver numa prova assim), de prevenção caso fosse necessária alguma ajuda. Chegado ao alto decidi não desistir. A missa decorria na Capela da Sra. do Minho. Uma criança brincava com o pai. O altifalante, veículos modernos de evangelização por esse Portugal rural fora, debitavam um cântico pouco afinado do coro que actuava na animação da celebração. Não era ali que eu ia ficar.
Segui no encalço do Manuel Veloso. O Rui Cunha, que queria parar aos 29 também vinha pouco mais atrás com o Telmo. Estava bem entregue. Aos 34 kms cruzo-me com o cunhado do Carlos Sá, que me felicita por ali ter chegado. Diz-me que o pior já está, incentiva-me e fica por ali à espera dos outros. Pouco depois, na descida, apanho o Manuel Veloso. Fomos juntos até ao km 43. Ora ele me passava a subir e incentivava a acompanha-lo, ora eu abria caminho a descer e a saltitar de pedra em pedra. Depois do km 38, o percurso estendia-se por kms divididos exactamente por metade a subir e metade a descer. Sempre por percursos duros em zonas de rocha. Sempre. A resistência era posta à prova ali. Tanto a física como a psicológica. Aguentámos bem. O Manuel Veloso, dizia que já tinha idade para ter juízo, eu concordava, ele subia bem, eu descia melhor, fomos repartindo forças e lá chegamos ao km 43, ponto comum com o km 3, donde se avistava a meta em Dem. Ali, com o mar no horizonte onde um último raio de sol lhe dava a cor do fogo, por entre as nuvens que entretanto já preencheram o céu, sentíamos o gosto da vitória da vontade sobre todas as dificuldades. Uma última contemplação sobre a espectacular vista da Serra d'Arga, que tem muito para apreciar, destacando-se sempre os cavalos que ali vivem em ambiente natural, numa completa harmonia de uma natureza no seu estado mais selvagem. Pena é que os humanos teimem em deteriorar a paisagem com lixo que por ali vão depositando em incursões mecanizadas.
Na descida ouvi o bater das 18h. O tempo limite da prova estava atingido. A Analice, que entretanto eu alcançara dizia que era limite de 42 e não de 46 kms. Eu sorria. Não era o tempo limite que importava. É aquele sentimento de superação. Aquela agradável sensação de recordar, sempre nos últimos metros, tudo aquilo que tenho passado. Toda a evolução que tenho vivido nos últimos 4 anos. E o prazer enorme de poder terminar uma prova espectacular. Mesmo exemplar em termos organizativos. O percurso é duro. Todos os que andaram muito rápido na primeira metade, pagaram um preço alto na segunda. Não foi o meu caso. Eu paguei em toda a prova. Mas fui recompensado por toda uma experiência que, no próximo ano, irei repetir.
O Manuel Veloso, a Analice (grande campeã) e o Rui Cunha acabaram também a prova. O Telmo acompanhou e ajudou o Araújo (atleta dos Amigos da Montanha) a superar os últimos kms em grande dificuldade. Foi uma prova de superação para todos os que a fizeram. Parabéns ao Carlos Sá, que é um exemplo como atleta, e também um excelente anfitrião. Estava lá, na meta, à espera dos últimos, com o Marco Olmo, padrinho desta edição.
Somos todos um bando de gente incurável. Depois de cada empeno inscrevemo-nos para outros. Ainda alguém há-de (d)escrever os loucos da montanha. Seja pelas amizades que se fazem com aqueles que sabem o que sentimos, mas que só vemos no início e no fim das provas, seja pelo prazer de apreciar a natureza, seja pela vontade de nos superarmos, sentimos todos uma necessidade inexplicável de fazer sempre mais do que achamos possível. Não há limites para qualquer um de nós, senão aqueles que nós colocámos a nós próprios. Desde que a máquina não falhe, que essa, nem se discute, é prioritária.

sábado, agosto 25, 2012

Portugal running e o Urban Trail

Há uns meses atrás, um amigo adicionou-me a um grupo no livro das caras, em inglês Facebook, associado a corridas, essencialmente um grupo de gente que gosta de correr, que corre e que troca ali umas impressões. Até aqui nada de especial. O nome, que dá título a este post, sugeria que aglomerava num só grupo gente que tem uma paixão em comum, e que ali poderia divulgar iniciativas, treinos e esclarecer dúvidas, fosse de que ponto do País fosse.
Pouco tempo depois, reparei que não passava de mais um grupo com boas intenções, mas mal frequentado. Alguns dos membros auto excluíram-se, outros, como eu deixaram de o acompanhar. De quando em vez, numa ou noutra espreitadela, reparava que o dito grupo não passava de um ponto de encontro numa rede social para pouco mais de uma dezena de habitués, que ali combinavam treinos e encontros, jantares e cafés, antes, durante ou após as variadíssimas provas que existem nas imediações de Lisboa. Naturalmente, e atendendo ao desinteresse das publicações, deixei de o consultar.
Vejo agora que aquele grupo de corredores mandou fazer camisolas, personalizadas, atribuindo à pseudo-equipa o mesmo nome que tem o grupo do FB. 
Mas adiante. O objectivo deste post não é fazer uma biografia de um grupo do FB, mas sim de alertar para comportamentos tomados em nome de um grupo, onde qualquer amigo nos adiciona (com boas intenções) e que, tomando a força de um colectivo que não dá opinião, desata a desvirtuar o espírito que normalmente tem quem corre por prazer. Ora eu corro por prazer. Sou pouco competitivo, venho de uma vida sedentária, sou ex-fumador, ex-obeso, gosto muito de usufruir das vantagens deste desporto. Faz-me confusão a inveja, o egoísmo, o chico-espertismo que normalmente não existe na corrida. Já vi finais de provas com dois atletas a acabar de mãos dadas, reconhecendo mutuamente o esforço e sofrimento, já vi grandes campeões a desistir, já vi outros a chorar de alegria apenas e só por acabarem uma prova. Ainda me arrepio quando me lembro de acompanhar a última atleta na Corrida das Festas da Cidade, no Porto, que chorava compulsivamente por ter à vista a meta e assim poder terminar a sua primeira prova de 15 kms. Eu sei o que é aquilo. Reconheço o esforço, já passei por aquilo, e continuo a passar.
Comecei numa prova de 7 kms, já fiz meias maratonas, provas de 10 kms, 5 maratonas de estrada e 5 de montanha. Sempre que posso vou a provas organizadas. 
Embora não sejam precisas para correr, todos nós temos como objectivo terminar provas. São poucos os que não participem numa ou noutra. Por pequena que seja. E daqueles que integram aquele grupo, todos os que opinam por lá, participam em provas. 
Um grupo de atletas, que recentemente caiu no desemprego, e que, corajosamente avançou na criação de uma nova vertente das existentes em Portugal, divulgou naquele grupo uma prova que, com imenso esforço prepararam e promoveram. Como os apoios são poucos em tempo de crise, e os custos de uma prova são muitos, o preço não foi do agrado dos “dinamizadores” do dito grupo. Vai daí, criaram, para o mesmo dia, um evento tipo “Free-Running”. Com cartaz (virtual) inclusive. Seria engraçado criar, em paralelo com todas as provas existentes em Portugal, uma “corrida pirata”, como eles chamam. Dizem que correm “quando quiserem e onde quiserem”. A inteligência deles é tal, que comentam a divulgação da dita prova, com alusão à corrida pirata. Acham giro, divertem-se e fazem da promoção de uma corrida uma palhaçada infantil, digna dos meus tempos de miúdo. Ocupam as ruas, porque sim, com aquele espírito do puto mimado, que não tendo sido escolhido para a melhor equipa na peladinha de jardim, só porque é dono da bola, vai embora e não deixa jogar ninguém.
Esta gente, que se farta de comentar a anulação de provas por causa da crise, que clama por apoios das Câmaras Municipais para que não deixem cair algumas, promove corridas paralelas com um evento divulgado no estrangeiro, por dois ou três carolas do trail. Dois ou três carolas, que há um ano se lembraram de fazer o que ninguém julgava possível. Habituados a treinar em ambientes citadinos para provas que aqueles que agora os boicotam nunca farão, decidiram promover o trail urbano. Aqueles ignorantes desconhecem a quantidade de gente que corre mundo para participar em provas destas, impossíveis de comparar com maratonas, onde se evitam os desníveis, para poderem conhecer as cidades históricas nos seus recantos mais secretos. Há já no Porto uma empresa que se dedica a corridas pela cidade para estrangeiros, a exemplo do que acontece em muitas cidades do Mundo, que recebe turistas indicados por outras empresas similares de destinos como o Japão, Canadá ou Chile. Mas estes inteligentes, que se acham os “Corredores de Portugal”, como se não houvesse mais Portugal para além de Lisboa e da sua ânsia de aglutinação de tudo o que é País, desconhecem os objectivos das provas. Acham que a prova era para lhes sugar dinheiro, e como acham que só eles é que podem correr ali e não têm que pagar, boicotam a iniciativa para se sentirem ainda donos de uma cidade que não é deles, como se acham donos de um nome que também não é deles. 
Começa na próxima semana o Ultra Trail do Mont Blanc. É uma prova que começa  e termina em Chamonix, França, e que passa por Itália e Suiça. É uma prova com mais de 5.000 atletas, sorteados entre mais de 30.000 que se inscrevem e que começou por carolice. Ninguém precisa de pagar para correr no Monte Branco, o dito está ali o ano todo para quem quiser usufruir dele. Mas também não consta que nenhum habitante local boicote a prova. São outras mentalidades.
Espero, a bem do trail, vertente que abracei há pouco mais de um ano, e onde conheci algumas das pessoas mais inspiradoras da corrida, que o Urban Trail tenha muito sucesso. Não ia participar no de Lisboa, mas agora vou. Porque também lá fui o ano passado à Maratona (e vou este ano) porque eventos destes fazem falta ao País.
Aos senhores do grupo do FB intitulado Portugal Running, aconselho-os a terem comportamentos dignos de gente com o mínimo de decência. E o mínimo da decência é não fazerem comentários jocosos a respeito de iniciativas que visam promover, desenvolver e incentivar a corrida.

segunda-feira, agosto 13, 2012

Jogos olímpicos

Terminada a participação nas olimpíadas de Londres, todos correm a esmiuçar as performances dos atletas que integraram a comitiva.
Eu, enquanto mero espectador atento, cinjo-me aos resultados finais. Fracos uns, dentro do esperado outros e espectaculares alguns. Passando por alguns amadores que levam muito a sério a hipótese que lhes dão de justificarem apoios e subsídios decorrentes da participação em Londres, passando por outros que tiveram a infelicidade de um momento, casos do judo e da ginástica, e a terminar naqueles que, tendo como principal actividade aquela que os levou aos jogos, aproveitaram para viver o ambiente da Aldeia olímpica e a sempre única e inigualável participação nas olimpíadas.
Não partilho da opinião da falta de apoios, ou da falta de condições para preparar a participação, nem tão pouco da ideia de que, para haver melhores resultados seria necessário maior investimento. Há imensos países onde o investimento é inferior e o retorno muito superior. O que falta em Portugal é cultura desportiva. Há boa maneira tuga, se não for o Estado a orientar, a suportar ou a pagar, ninguém faz nada. Não é por ter havido multiplicação de piscinas e pavilhões multiusos no País que as modalidades ligadas à natação e aos desportos de pavilhão tiveram desenvolvimento. Foram mais úteis para o fomento da actividade física os parques desportivos e as ecovias, do que os imensos campos de futebol, pavilhões e piscinas construídos, que mais não foram que panaceias para a anunciada crise das construtoras e garantias de reeleição de alguns autarcas. Se gastassem em ecovias o dinheiro que gastam em bandas gástricas, haveria muito provavelmente maior campo de recrutamento para todas as modalidades desportivas. Há 25 anos, quando as condições eram menores, havia mais empenho numa participação olímpica do que agora. Há mais mediatismo noutros eventos, e há mais eventos.
Voltando aos resultados, ninguém pode avaliar um atleta por uma participação num grande evento internacional, mas parece-me que, nem todos apontaram para os Jogos o topo de forma, pelo menos no atletismo, o que, nalguns casos se compreende. Os que participaram nos jogos fizeram por merecer a chamada. Não esperava mais do que o máximo de dedicação em treino nestes quatro anos. O resultado é o que menos importa. Temos uma representação pequena, porque pequena é a base de recrutamento.
Voltemos agora ao normal. Os atletas fazem pela vida sem apoios e quase sozinhos e são ignorados pelo País futeboleiro.
Quem gosta de desporto em geral, como eu, que faça o mesmo ao futebol, apreciem apenas os grandes eventos. Campeonato do Mundo ou Europa, o resto é para ignorar. E façam desporto, pela vossa saúde!

sexta-feira, agosto 10, 2012

Sou tripeiro. Sou do Porto!

 

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O texto não é meu, mas é exactamente aquilo que eu penso desta cidade. Moro em Gaia, e sempre que passo a ponte D. Luís sinto um arrepio de quem, mais uma vez regressa a casa. Aquele "quadro", a cascata são joanina que tão bem descreveu Carlos Tê no Porto sentido cantado por Rui Veloso, é uma brisa que me refresca a alma e aquece o coração. Também eu sou do Porto, também eu o sinto meu. 

 

Nasci na freguesia de Santo Ildefonso. Os meus dois primeiros anos, passei-os em Cedofeita. Cresci, vivi e vivo em Ramalde. Sou do Porto, portuense, tripeiro.

Ninguém escolhe a cidade onde nasce. Eu nasci no Porto. Ligam-me a esta cidade sentimentos que por mais nenhuma poderei ter: uma ternura, uma nostalgia, um afecto, que só se tem pelo sítio onde se nasce e onde se cresce. Foi no Porto onde aprendi a andar. Foi nas escolas do Porto onde aprendi a ler, a estudar… Foi no Porto que criei os meus primeiros amigos, que fiz os meus amores. A minha infância (e a felicidade que dela emana) tem o Porto como pano de fundo.

Gosto do sotaque do Porto, das vogais abertas, da força do discurso, dos palavrões… Gosto das ruelas da Ribeira, da sua nobreza e burguesia entranhadas. Gosto das pontes. Gosto da Foz do Douro, do mar… Gosto das vistas da Sé e da Praça da Liberdade. Gosto da comida, das francesinhas, das tripas e da hospitalidade. Gosto do São João (a noite sem fim) onde a cidade se torna pequena e o que na Baixa começa na Foz termina.

Não sei se o Porto é a melhor cidade do mundo, nem me interessa. O Porto é a minha cidade. Por isso me comovo com o “Porto Sentido”, por isso vibro com os golos que desfraldam as bandeiras com o nome da minha cidade (nunca entendi os tripeiros que só vibram com o desfraldar de bandeiras doutras cidades e doutras freguesias…).

Ao Norte de um país do Sul da Europa é uma mistura, mais Celta que Moura, nas gentes, nas casas, nas ruas, nas cores e na chuva. Cidade histórica, invicta, nobre e burguesa, é também uma cidade pequena, fechada e conservadora. Não sou obrigado a gostar de tudo no Porto, mas não renego o sítio onde nasci e cresci. Sou do Porto por emoção e por razão!

Vivemos num país que durante muito tempo afunilou o desenvolvimento num só local (a capital) deixando tudo resto ao abandono. Esse é um facto do passado. Hoje o Estado já não tem o poder que teve e está muito mais nas mãos de cada cidade projectar-se competitivamente ao nível internacional. O Porto de hoje precisa de mais economia, de mais riqueza e energia, criatividade e sabedoria (por isso é tão importante potenciar ao máximo a Universidade). Precisa de redes, parcerias (como a aproximação à Galiza) e infra-estruturas (note-se a importância do metro e, principalmente, do moderno aeroporto, para o desenvolvimento turístico e económico da região). Porém, para tudo isso, precisa de gente e muitos tenho visto a emigrar (para Lisboa primeiro, para Madrid, Londres, Bruxelas ou Luanda depois). Resta saber se vão voltar (eu acho que muitos querem voltar)... Eu próprio não sei em que cidade terei que ficar… Sei é que esta é uma boa cidade para se amar e que, qualquer que seja o futuro que o futuro lhe reserve, esta é a cidade de que sempre me irei lembrar!

Gabriel Leite Mota, in Jornal Público, P3, 07/08/2012

segunda-feira, agosto 06, 2012

Ultra Trail Nocturno Lagoa de Óbidos

Nada melhor que uma estreia para a minha 10ª maratona.
Uma estreia em prova exclusivamente nocturna, e uma estreia num terreno que até aqui evitava: Areia e dunas.

A prova começa (apenas o controlo de chip) e termina no Castelo de Óbidos, daquela belíssima localidade do centro do País. Com a realização da Feira Medieval, e a inevitável presença de milhares de visitantes, foi assim emoldurada a partida simbólica, com o serpentear das ruas da Vila histórica por umas centenas de atletas rumo aos trilhos que circundam a bela lagoa de Óbidos. A partida real foi dada no exterior da muralha, com o rápido alongamento do pelotão, onde a boa disposição imperava. Entre os imensos participantes, muitos eram os que se estreavam em provas de trail, ouvindo-se bastantes e constantes avisos de “pedra”, “ramo” ou “subida”. Apesar de todos irem equipados com o obrigatório frontal, as armadilhas espreitavam sempre junto aos pés. Estando as marcações, excelentes, mais acima, era obrigatório projectar para aí a luz. Qualquer desatenção levava a desvios evitáveis e que aconteceram amiúde.

Até à separação das provas, a curta de 25 km e a distância ultra de 50, o trilho foi pequeno para tantos participantes. Junto à lagoa, nas zonas de passagem por água ou lama, já era difícil a progressão. O serpenteado de luzes embelezava a noite da pacata planície e os gritos de alegria de corredores maravilhados com a experiência rasgavam o silêncio habitual da zona. Os campistas, admiravam o cortejo, e ofereciam o que podiam “uma água ou cerveja”, disponibilizava um miúdo. Decidi recusar a cerveja.

Depois de separadas as provas, a calma. Aquilo que mais aprecio nas ultras. Parece que todos vamos para ali em busca de retiro espiritual. A paz que sentimos enquanto sozinhos na natureza, em perfeita harmonia com o meio ambiente, um coelho que passa, uma coruja que canta ou um sapo que coaxa, é inexplicável e inigualável. De noite a calma é exponencial.

Aos 26 kms, depois do 2º abastecimento, a grande dificuldade desta prova. Chegados à Foz do Arelho, 6 kms em areia e arribas. Para subir as arribas, em terreno de areia muito fina, por cada passo que dávamos, parecíamos deslizar 3 ou 4. Impressionante. Um troço que incluí passagens por rochas com menos de 0,5 mt de largura, e sempre com muita areia. Palavrões geravam incentivos, das fraquezas redobravam as forças e lá fomos, num grupo que entretanto se formara, até ao abastecimento do quilómetro 32.

Daqui até ao último abastecimento fui travando conhecimento com os dois atletas que haviam saído comigo do controlo dos 32, e que comigo se perderam por umas centenas de metros. Nada de grave. Lá fomos correndo nas descidas e nas zonas planas e caminhando nas subidas, visto que, apesar de termos saído da praia, o terreno continuava muito solto e em areia. A chuva, miudinha, já nos acompanhava para nos refrescar. Fomos passando vários corredores até ao final, acabámos frescos e com sentimento de dever cumprido.

As peripécias vividas foram muitas, mas abstenho-me de as contar, na certeza de que, os que as viveram sabem do que falo, e os outros devem vir experimentar. Importante dizer que a prova é superiormente organizada, num ambiente de corredores para corredores. A espectacularidade do trajecto, embora sem podermos desfrutar em pleno, por ser de noite, mas que tem uma beleza sem igual pelo efeito provocado pelo pelotão e pela zona de praia, levam-me a dizer apenas e só que fiquei apaixonado por esta corrida. No próximo ano, se nada houver em contrário, não faltarei.

Os abastecimentos, com um apoio inexcedível dos voluntários, com presença de socorristas e muito bem colocados ao longo do percurso. Percurso bem marcado, a exigir alguma atenção nas zonas mais iluminadas, onde os reflectores não eram perceptíveis (km 26 e 32), talvez fosse prudente acrescentar algumas fitas reflectoras nesses locais e em alguns cruzamentos.

Uma última palavra, de agradecimento para o Jorge Serrazina e restantes membros da organização, que tão bem nos acolheram e tão bem nos trataram nesta fantástica festa do trail nacional. Obrigado!

Os resultados e outras informações da prova, podem ser consultados aqui.

segunda-feira, julho 30, 2012

Trail Santa Justa e uma justa homenagem

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Organizado pelos Amigos do Trail, que como o nome indica, é um grupo de amantes da corrida de montanha, que treinam habitualmente nas Serras de Santa Justa, Pias e Castiçal, que, em conjunto formam o maciço de Valongo, decorreu ontem nesse belo espaço verde, mesmo aqui ao lado do Porto, a primeira edição, com saída e chegada no Parque da Cidade de Valongo.
A prova, como qualquer primeira edição, teve lapsos de organização que certamente serão corrigidos, e que tiveram origem na ânsia de proporcionar aos participantes do Trail, na distância de 21 kms e da Corrida/Caminhada com 12 kms a percorrer, as emoções e sensações que habitualmente experimentamos noutras serras e trilhos do nosso Portugal. A ideia de colocar no mesmo trilho, e com a mesma dificuldade, os caminheiros, pareceu-me exageradamente arriscada, e levou ao extremo o esforço de algumas pessoas que se preparavam para uma experiência que não englobava subidas com grau de dificuldade elevado, técnico e físico.

Os primeiros 6 Kms de prova eram a rolar, o que proporcionou imediatamente uma selecção dos atletas. Com uma subida aos 360 mts em apenas 3 kms, logo se proporcionou aos atletas a oportunidade de acelerar os batimentos cardíacos, tanto pela vista do alto da serra de Pias, como pelo esforço despendido numa inclinada e dura escalada. Rapidamente abordada a descida, com muita pedra solta a solicitar destemido arrojo, segunda paragem para rápido abastecimento (num total de 4, excelente para a distância) e retorno ao estradão, que já cansava. Aqui, uma surpresa relativamente ao treino de reconhecimento uma semana antes, entrámos num bonito e curto exemplo de trilho à beira rio, onde os domingueiros, com toalhas estendidas nas frescas sombras, nos iam indicando o caminho a seguir. Novo abastecimento e nova subida. Esta, de quase 3 kms, e com um início algo técnico, com muita pedra solta, e um final com uma inclinação brutal para quem ia apenas fazer uma caminhada. É que este era também o percurso final da corrida e da caminhada. E depois da subida, uma descida em pista de downhill, bastante divertida para quem gosta de trail, mas, pareceu-me, imprópria para caminhadas.

As classificações e outras informações, podem ser consultadas aqui, no site do evento.

Enfim, um agradável Domingo, num dia de algum calor, com sol, onde o apoio dos Escuteiros dos Agrupamentos de Gandra e de Sobrado foi inexcedível, e no qual todos se divertiram e muitos puderam experimentar, alguns pela primeira vez, a diversão de uma corrida de trail.
É sempre uma alegria ver tanta gente a chegar, a música, com escolhas que variam entre José Malhoa e Ac/Dc, o burburinho antes da partida, o rever caras conhecidas das corridas e o convívio entre apaixonados de uma modalidade cada vez mais popular, e para a qual apenas precisámos de umas sapatilhas e força de vontade. O prazer vem com a regularidade. E é um prazer enorme poder partilhar experiências com tanta gente que me faz, cada vez mais admirar cada um deles.

Um cumprimento especial a um grande senhor das corridas em montanha, que me dá o privilégio de ser seu amigo. Sempre disposto a uma palavra de incentivo, sempre na disposição altruísta de ajudar, seja em treino ou em provas, e que, todos nós, tenho a certeza, almejámos imitar. Representa, quanto a mim, o espírito do trail na sua essência. É o exemplo de respeito, boa disposição, desportivismo, educação, elevação e camaradagem. Sempre com um rasgado sorriso, que a todos nos marca. Faz hoje 52 anos e corre como correm poucos de 25. Mereces esta homenagem, Carlos Natividade. Obrigado por tudo.

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segunda-feira, julho 02, 2012

Ultra Trail Serra da Freita 2012

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Prova extreme do trail nacional, ou “um filme de grande produção”, como diz o José Moutinho, em contraponto com a minha estreia, há um ano, na versão pequena desta mesma organização, e à qual o seu director chama “um pequeno trailer”. O trail, na sua essência, é aquilo que a Freita nos dá: Desafiar a natureza, lidar com os obstáculos que ela nos coloca e que nos dificultam ao máximo a progressão. Desde rios, túneis, escarpas e montes até ao bode com uma pata partida ou à vaca de grande porte com quem dividimos, momentaneamente, o trilho.
A prova é, na palavra do José Moutinho, gourmet. Gourmet, meu caro amigo, é a de 17 kms, porque gourmet é em pouca quantidade, só para provar. O que eu vi ontem na versão longa metragem é um buffet à discrição! A UTSF é o Tromba Rija do trail.

Esta é (mais) uma crónica vista de trás. Não sou, nunca fui, atleta de eleição, mas sinto-me privilegiado por poder “beber” da experiência e capacidades fantásticas dos que comigo partilham trilhos e dores. Luto muito, cerro os dentes e fixo o olhar na ponta das sapatilhas, na esperança de que, quando volte a elevar o olhar, os cumes estejam mais próximos, para poder voltar a respirar aquelas paisagens que nos envolvem e que nos fazem sentir tão, mas tão minúsculos, num Mundo onde somos invasores e em que, cada vez mais, somos factor de desequilíbrio e de destruição. São estas sensações que me fazem inscrever em cada desafio. Poder partilhar estes sentimentos e sensações com um amigo ganho nas corridas é um privilégio ainda maior.

O dia começou com chuva intensa e temperatura a rondar os 10º, condições excelentes para correr em montanha, visto que, estando a partida da prova a mais ou menos 900 mts de altitude, e como os primeiros quilómetros seriam a descer, a tendência seria de aumentar pouco mais, desde que a chuva desse tréguas, o que se veio a verificar ainda antes do início.

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Os primeiros quilómetros passaram rápido, até atingirmos os primeiros verdadeiros desafios. Fui, desde o início, com o João Meixedo, em amena cavaqueira. Decidimos não arriscar, avisados pelo Moutinho, e fomos, sensatamente, em passo calmo rumo ao Rio Paivô. Depois de uma primeira sessão de crioterapia, o primeiro inédito desta edição: Uma passagem de cerca de 300 mts por um túnel, onde deveríamos ter usado os frontais, mas a preguiça levou-nos a usar os bastões, quais bengalas de cego, e o pequeno ponto de luz no final do dito, como guias de ocasião. Chegados ao troço de rio, começamos a experimentar a tracção das sapatilhas. Entre mergulhos, travessias a nado, escorregadelas dentro e fora de água e algumas cabeçadas e caneladas nas escarpas, lá chegamos ao primeiro abastecimento, em Covelo de Paivô. Primeira surpresa. Quase uma dezena de atletas à espera de transporte para o Merujal, que me fizeram pensar serem de outra prova, não fossem os dorsais. O Rio a fazer as primeiras vítimas.
Dali aos 30 kms foi um reconfortante quadro que nos envolveu e que fez com que os quilómetros passassem sem serem notados. Entre a Serra da Freita e a de S. Macário, uma formidável e asfixiante paisagem, digna de um paraíso terrestre, com o epílogo em Drave, a bonita aldeia histórica conservada por escuteiros e onde estava o 2º abastecimento. Mais um trajecto no rio. Fomos avisados pelos elementos do abastecimento que teríamos 10 kms muito duros, mas nunca pensámos que fossem mais duros que os que ultrapassáramos antes. Mas eram. O rio, naquela zona, obrigava a muito mais passagens por escarpas que se revelavam perigosas. A certo ponto, como a progressão se tornou impossível para quem balizou o percurso, optaram por uma saída por uma escarpa, extremamente perigosa e onde encontrar pontos de apoio se revelava difícil. Dali saídos, sãos e salvos, o Meixedo saca do repasto preparado como almoço: Duas sandes de presunto que repuseram energia onde ela já faltava, e que confirmaram os dotes culinários do meu companheiro de jornada.

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Quando demos por ela, estávamos de volta ao rio. Uma pequena passagem para podermos iniciar a subida para os “3 Pinheiros”, e consequente acesso a Candal, pelo “Trilho dos Incas”. O problema nesta incursão ao rio, foi o percurso estar marcado com fitas da “Asics”, e o trilho seguinte com fitas da “EDP”, sem nenhuma transição perceptível e que nos colocou na dúvida, se o trajecto seguia pelo rio ou se seria aquele. Subiu o Meixedo alguns metros e reconheceu a envolvente, recordando-se de uma foto publicada por uma das pessoas que havia feito a limpeza dos trilhos. Esta subida era brutal. Do melhor que já vi e fiz em trail. Mais de uma hora para a fazer, na peugada do Meixedo, que levava um bom ritmo, e que parecia não terminar nunca. Aqui, e como em quase todas as provas, aprendi mais uma lição: Não adiar nunca a hora de comer. Quando apetece, o melhor é mesmo comer um gel, ou uma barra. Fui adiando, não quis parar a meio da subida, e já a menos de 2 kms de Candal, em pleno Trilho dos Incas tive que o fazer. A consequência deste erro viria depois.
Chegados ao abastecimento dos 40 kms, já recuperado da estopada que foram as duas incursões no rio, em apenas 5 kms, e aquele tão belo quanto duro trilho em plena “Garra” (termo usado pelo Moutinho para definir uma encosta onde coincidem vários trilhos), repusemos energias e repousámos as emoções. O veredicto do elemento da organização que ali se encontrava é que não nos convenceu. Estávamos fora do horário de controlo, e não podíamos prosseguir. O Meixedo mostrou a nossa indignação, tentando contrariar a vontade que tinham de nos barrar a passagem. Demos conta da nossa determinação em seguir caminho, mesmo à nossa responsabilidade, tendo o elemento da organização procedido ao check-up do material, por segurança. Entretanto iam-nos avisando que o que faltava era muito duro, que íamos fazer grande parte do trajecto de noite, que iria estar muito frio, etc. Nada dos demoveu. Fomos embora a blasfemar contra tudo, todos e principalmente contra a nossa, até então, prudência e sensatez. Mas como não estávamos preparados para desistir sem motivo de saúde, ou caso estivesse em perigo qualquer um de nós, seguimos. Na subida da Fraguinha fraquejei. Estava a pagar a má gestão da alimentação em tantas horas de prova. Tinha no “bucho” uma sandes de presunto, meia banana, dois géis e uma barra energética. Pouco, muito pouco para mais de 11 horas de prova. O Meixedo, indignado, lá ia dizendo que havia de chegar pelo pé dele, com ou sem abastecimentos (tinham-nos dito no abastecimento dos 40 que não esperariam por nós em nenhum dos seguintes). Eu, quase sem falar ia sorrindo com ar de resignação. Desse por onde desse, caso continuasse assim, a fraquejar, e por muito que o quisesse acompanhar, não sabia então se teria condições para o fazer.
Já aos 50 kms de prova (no GPS do Meixedo, porque o meu “morrera” aos 46), em Manhouce, nem sinais de qualquer abastecimento. Eu, já recomposto da quebra, revigorado pelo sorriso do Meixedo por não ver quem lhe tirasse a companhia, estava determinado a ir com ele até ao Merujal. Havíamos de ali chegar, triunfantes, no meio do nevoeiro. Sentados nuns bancos de pedra junto a uma fonte, fizemos o nosso próprio repasto: Um pacote de caju que eu tinha na mochila, dois géis e bebida isotónica (as pastilhas revelaram-se fundamentais, devido à restrição de bebida energética) fizeram a ementa do jantar. Colocados os frontais, pusemos pés ao caminho, sempre pelo trajecto balizado. Um pouco mais à frente um vulto saúda-nos. Era o Fernando Rocha, colega dos Porto Runners, que estava no apoio do abastecimento dos 50 kms, e que esperava alguém da organização para recolher dois atletas que ali tinham abandonado a prova. À pergunta do Fernando se íamos seguir, respondemos em uníssono afirmativamente. Prometeu-nos simpaticamente um café no abastecimento dos 60, e que lá nos esperava, descansando-nos em relação ao percurso.
Lá fomos nós. Era já noite. O percurso ali, não estava ainda balizado com fitas reflectoras, tornando-se assim difícil distinguir algumas no breu. Encosta acima, trilho abaixo, mais rio para atravessar, numa zona com uma mini-hídrica e onde tínhamos de caminhar dentro de água, mas felizmente sem incidentes. Quando chegámos ao fim da subida, já a menos de 1 km do prometido controlo dos 59, eis que vindo da escuridão, aparece o José Moutinho ao volante da sua pick up (curiosamente o termo traduzido à letra do inglês é boleia, ou apanhar), buzinando. Recolheu-nos dizendo que a prova tinha sido suspensa por razões de segurança, devido ao nevoeiro e que nos ia ser atribuído o tempo de prova de 17 horas. 
No “Refúgio da Lomba” esperava-nos uma canja, uma bifana e uma mini, que degustámos, esses sim como gourmet, na companhia de mais alguns colegas que aí foram recolhidos e levados, connosco até ao Merujal. Não foi a forma com que queria acabar a prova, sair de um carro, entregar o chip e receber o troféu de finisher, mas foi o que me calhou.
Não sei se teria ou não conseguido chegar à meta sem mais percalços, mas sei que não desistiria nunca. Com 10 kms para o final, tenho a certeza que, mesmo de rastos, o Meixedo me arrastaria para a meta. E tenho a certeza, porque apesar de o ter atrasado com aquela quebra pouco antes dos 40 kms, foi ele que me mostrou só com simples frases que chegaríamos desse por onde desse e que éramos capazes. Quando se tem assim um companheiro, com uma força, determinação e coragem do tamanho daquela serra, não temos como o desapontar. Suguei dele o que pude, enquanto pude, e enquanto ele me foi mantendo à vista. Fiz o que consegui, sem deixar nunca de pôr um pé à frente do outro, na esperança que não o atrasasse e não o deixasse cumprir o sonho. Pela sua determinação, pela bravura de um verdadeiro ultra, determinado e obstinado no objectivo, e, acima de tudo, pelo companheirismo, mereceu aquele troféu de finisher. Diga-se em abono da verdade que merecia o dele e o meu.
Obrigado Meixedo.     

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Para terminar, não quero deixar de agradecer a todos os que contribuíram para a organização da prova, aos Leões do Veneza, às populações e aos voluntários.
Ao José Moutinho, agradecer as palavras de apoio no final (tem aquele jeito de nos calar com o termo que mais usa: “Campeão”), agradecer o empeno que trouxe da aventura fantástica que é a Ultra Serra da Freita, mas dizer-lhe que, mesmo sem tanto “petisco” no rio Paivô, o Gourmet era perfeito. Não precisávamos de provar tanta técnica. Vou seguir o teu conselho, e vou treinar nas rochas das praias da marginal do Porto. Pode ser que no próximo ano salte entre elas qual cabra montesa.
A última palavra fica para todos os que participaram nesta prova. Aos que participaram no “trailer” (17 kms) e que com certeza tiraram uma pequena ideia da dureza e beleza da Freita e principalmente aos que se aventuraram na prova rainha, a tal “película de grande produção”. São todos uns bravos. Todos, sem excepção. Desistir numa prova como esta é tão difícil como a fazer, até porque, depois da partida, só mesmo nos abastecimentos há hipótese de recolher quem para. Concluir é para alguns eleitos. Não basta estar preparado fisicamente, é preciso ser muito forte mentalmente. O Luis Mota e a Carmen Pires foram os primeiros a concluir a prova nos respectivos segmentos. Parabéns pelas vossas vitórias.

Por fim fica a frase que serviu de inspiração a um amigo e atleta exemplar, o Carlos Natividade, que, na sua estreia, concluiu brilhantemente a prova.

"É melhor tentar e falhar, que preocupar-se e ver a vida passar; é melhor tentar ainda que em vão, que sentar-se fazendo nada até ao final.
Eu prefiro na chuva caminhar, que em dias tristes em casa me esconder; prefiro ser feliz, embora louco, que em conformidade viver".

(Martin Luther King)

P.S.:Fotos retiradas do Facebook, da autoria de Hugo Santos e do Francisco Serrano Cantalejo

terça-feira, maio 22, 2012

V Ultra Trail Geira–Via Nova Romana

 

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Vêm em silêncio. Estacionam perto daquela que há-de ser a almejada meta de uma prometida empreitada digna de registo. Serão 52,5 kms de corrida desde a localidade de Baños de Rio Caldo, na vizinha Galiza, pela Via Nova. Sonolentos, despertam sorrisos com o sono dos que vão chegando. É sempre assim. Os que viajam no dia da prova vão-se abrigando, ora da chuva, ora do frio, dentro dos carros, vão limpando os vidros embaciados, na busca de outros que chegarão, também de casa, também arrancados ao conforto da cama num Domingo de madrugada, ou da escola primária ou pavilhão que serviram de casa aos que vieram de véspera. Nunca fui. Vou quase sempre no dia. A designação do espaço destinado ao alojamento de quem não prescinde de mais uma ou duas horas de sono, “solo duro”, provoca-me dores nas costas por antecipação. Nada que um colchão não resolva, mas…

Em burburinho controlado, caminham apressadamente pela arvorada rua que ladeia as famosas Termas de Caldelas em direcção aos autocarros que os hão-de levar à partida.

Já em elevada agitação, num quase estado de manifestação espontânea de um grupo de miúdos de escola prestes a estrear um brinquedo, aglomeram-se junto a um estranho tanque de água quente ali sito, onde meia dúzia de anónimos se espantavam com tamanha algazarra na normalmente pacata terra. Espantados, mas sem saírem do certamente aconchegante conforto de águas quentes em tempo chuvoso e fresco. Ninguém cedeu à tentação de ali ficar, literalmente, a banhos.

Depois de salvas a César, cuja figura discursou, mas que eu, sinceramente não ouvi, foi dada a ordem de partida.

E dali até ao final foram 5 dezenas de quilómetros a apreciar a beleza do Gerês, na sua vertente mais selvagem. Um percurso belíssimo, com imagens formidáveis que nos fazem ter vontade de voltar. Nem a chuva, fria, nos impediu de desfrutar de todo aquele quadro esplendoroso, desta abençoada terra outrora conservada e cruzada por romanos.
O final da prova é surpreendentemente uma original caminhada pelo Rio Homem, ontem com muita água e caudal devido à chuva, mas onde os músculos relaxam com o choque térmico provocado. No mínimo original. Na minha opinião, genial.
Prova aconselhada a quem gosta de natureza, e quer tentar a estreia numa ultra-maratona de trail. É propícia à corrida, visto as dificuldades técnicas do percurso não serem elevadas, devendo contudo, os menos experientes, refrear a tendência de corrida muito rápida devido à distância. 52 kms custam sempre.

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No fim do dia, um sobe e desce de gente mais ou menos vagarosa, normalmente suja de lama, com ar fatigado e sorriso rasgado. Todos se cruzam e se cumprimentam. Mais dois ou três ou mesmo meia-dúzia de amigos que se conheceram no meio de uma serra, enquanto comiam um pedaço de banana e diziam umas palavras de ocasião aos voluntários dos imensos postos de abastecimento. Uns a mancar, outros como se nada fosse, quase todos os estreantes sem largar a medalha que lhes há-de perpetuar aquela sensação feliz e realizada de ser Ultra-Maratonista. Com um espírito que não se explica, não se percebe enquanto não se prova, mas que nos fica no sangue, na mente e no corpo, na exacta medida que nos vão saindo da pele todas as horas de esforço e sofrimento. Um espírito forte, que nos acolhe, que nos suga para dentro de uma família que sabemos que nos vai apoiar no próximo desafio, no próximo empeno, na próxima prova louca onde nos vamos inscrever. Porque depois de uma prova, depois do sofrimento, depois do empeno e enquanto colocam gelo nas mazelas, fazem pesquisas e inscrevem-se em mais uma aventura, em mais uma reunião de gente saudavelmente insana.

É isto o Trail Running. 

sexta-feira, maio 04, 2012

Respirar e sorrir

Há apenas duas coisas que me fazem sentir, mais que todas as outras, vivo e feliz por viver. Correr e ouvir música. Não serei caso único, mas o fascínio que me provoca esta bela forma de encantar, que a natureza nos proporcionou, faz-me saltar de estado de espírito em estado de espírito, sem nunca querer parar de ouvir. O que mais tem piada é que salto de estilo em estilo sem estranhar.

“Viver intensamente cada dia, que isto está a passar cada vez mais depressa”.

Esta frase espelha a vida. Tudo aquilo que vamos vivendo, com mais ou menos intensidade, vamos um dia recordar com imensa saudade. Devemos viver tudo, sentir, cheirar, provar o sal da vida. Arriscar, tentar, falhar e perder. Tudo nos fará sentir que valeu a pena. Porque a vida vale mesmo a pena.

A saudade, o recordar tempos idos, faz bem à alma, é saudável.

Começa hoje a Queima das Fitas. Fica aqui a minha homenagem a todos os que choram de saudade.
Os que a vivem, aproveitem. Nunca as esquecerão.

Só nos resta desfrutar, suspirar e sorrir.

Ainda o Pingo Doce

Não sou economista, director de jornal, deputado à AR, nem cronista ou comentador da actualidade política. Ao contrário da grande maioria dos "opinion makers" deste País, vivo no Porto.
Viver fora de Lisboa e da sua sufocante área metropolitana, dá àqueles uma visão deturpada da realidade que se vive no País. Consideram, para tirar ilações e sensibilidades sobre qualquer assunto, que aquilo que vêm é o espelho do País. Quando muito, e se as tv's tiverem estagiários disponíveis para relatos tremidos, apercebem-se da realidade do Porto.
Tenho seguido com especial atenção o debate gerado em torno da promoção de 1 de Maio no Pingo Doce. Quase todos se escandalizaram, com a esquerda e sindicatos, que se acham donos de datas, a liderar a indignação. O governo, na linha socialista de todos os que nos governaram desde 74, tenta legislar margens de lucro. Os pudicos e pudicas da esquerda caviar, falam do perigo de ajuntamentos de povo (que horror) e da exploração dos funcionários do Pingo Doce, que, como é hábito da esquerda, queriam que fossem obrigados a descansar. É pecado trabalhar no 1 de Maio.
Ora, não sendo eu aquilo tudo, não deixo de ser cidadão e observador do fenómeno.
No dia 1 de Maio não fui ao PD. E não fui porque abomino lojas e centros comerciais em dias festivos. Mas também evito praias em Agosto, jogos de futebol, trânsito em hora de ponta, etc. Não gosto de confusão.
Ontem fui ao PD do costume, o de Canidelo, junto à praia, em Gaia. É o sítio onde faço compras, quase semanalmente, por ser o mais próximo de casa. Curioso, com uma imagem formatada pela opinião bebida na comunicação social, e apenas com um ou outro testemunho na primeira pessoa de alguns clientes, (quem teve paciência e tem que contar todos os cêntimos, ganhou) quis saber mais sobre a empresa e em especial sobre aquele dia. Aproveitando o facto de estar na hora do fecho e ser o último cliente, fiquei um pouco à conversa com uma funcionária (coisa que poucos se devem ter preocupado em fazer). Disse-me que recebem todos os feriados a triplicar e têm direito a uma folga extra, preferindo assim, quase todos trabalhar (liberdade também é isto, poder escolher), os Domingos recebem a dobrar, e quando têm que fazer horas nocturnas recebem como tal. Disse-me ainda que a grande confusão no dia da promoção, foi o facto de não haver estacionamento para tanta gente, nem espaço dentro da loja. Os stocks esgotaram (como seria de esperar), as filas para as caixas eram intermináveis (quase todos os clientes faziam compras enquanto um esperava na fila), e o dia começou mais cedo para preparar tudo aquilo e terminou mais tarde. Não tiveram oportunidade de fazer as compras com a promoção nesse dia, tendo sido informados que o podem fazer agora, depois de repostos os stocks. Diz-se contente por trabalhar no grupo Jerónimo Martins e gostar do que faz. Aprecia o facto de ser acarinhada, sente que faz parte de um todo, por ser respeitada, por receber prémio dos lucros da empresa e por poder fazer o que gosta. Não, não era a gerente de loja. Falei com uma Senhora, nos seus 50 anos, funcionária da peixaria.
Não foi por isto que lutaram os que morreram nas lutas sindicais do século XIX em Chicago?
Eu sei que é uma chatice apregoar o socialismo e vir um grupo empresarial da grande distribuição aplicá-lo com mais eficácia que os próprios. Deve doer. Daí terem começado a chamar a Soares dos Santos, merceeiro holandês.
Deve ser por não ter invocado a crise para cortar direitos aos trabalhadores, ou por ter-se atrevido a liderar um grupo que gera lucros e os distribui com equidade.
Deram-lhe razão, à posteriori, pelos insultos dogmáticos de quem se sentiu ofendido pela violação do dia sagrado sindical. Se calhar seria bom ouvirem quem trabalha.

domingo, abril 29, 2012

Free-Running Nocturno. O Porto by night

 

Houve anos em que eu vivi o Porto noite fora. Passava as minhas noites num carrossel entre os bares da Ribeira e as discotecas da Foz e Boavista. Como o dinheiro não abundava, como atestavam as caminhadas diárias do Marquês à Ribeira, e das partilhas de táxi de e para as discotecas, fazíamos dos pés meio de transporte forçado.
Quando muito na Queima das Fitas ou no S. João, desfrutava-mos das caminhadas.
Até ter mota ou carro, era este o ritual de muitos de nós. Um fadado destino de percorrer a cidade a pé, porque os autocarros também escasseavam.

Ontem tive a oportunidade de reviver tempos idos, mas com uma vassoura às costas.

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Nascido da cabeça de amantes do Porto e do trail, que exploram ao máximo a zona histórica, Património da Humanidade, rica em ruelas, vielas, escadarias todas com acentuados declives, a confluir na lindíssima zona ribeirinha, outrora centro logístico do Norte do País, e agora transformado em passeio para os milhares que nos visitam, surgiu o Urban Trail Porto. Com a necessidade de conciliar treinos diários para provas de montanha com o facto de viverem numa cidade, o Jorge Azevedo e o Miguel Catarino, organizadores e criadores do Urban Trail, fazem, como muitos outros da zona antiga da cidade trilho de treino. Aproveitar e dar uma saltada à zona ribeirinha de Gaia, Serra do Pilar e zona das caves, é o mimo de ter a cascata são joanina como paisagem. É incrível como conseguimos fazer na nossa Cidade treinos que variam entre praia, campo, terreno plano ou acidentado, acumular desníveis superiores a 1000 metros…

Isto tudo, mas em grupo. Melhor, com uma multidão.

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A cidade fervilhou após as 22h, com um serpenteado de luzes usadas pelas mais de 500 pessoas que aderiram ao desafio de explorar os caminhos de granito do Porto e Gaia. Da Alfândega à Sé, subindo pelas Escadas do Barredo, passar pela Rua Escura, Viela do Anjo, Escadas dos Guindais e Codeçal, Ribeira, onde nos misturamos com turistas e boémios, com uma belíssima incursão a Gaia onde nos esperava o melhor ponto, a Serra do Pilar, para observar e fotografar (também havia um concurso de fotografia) a mais bela paisagem urbana que se pode imaginar.

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Atravessámos as pontes do Infante e D. Luís, convivemos com autênticos craques do trail nacional, uns mais conhecidos que outros, mas todos com um espírito fantástico. E é este espírito que nos faz amar esta forma de vida. Deve haver poucas coisas onde se veja tanta humildade como na corrida, onde todos nós cedemos às fraquezas, mas fazemos das nossas poucas energias muletas dos que delas precisam. Vi gente que nunca tinha feito trail, maravilhada com a experiência, apesar do esgar de esforço com que trepavam mais um degrau.

Houve muitos que nunca tinham sequer imaginado que há uma cidade a explorar, uma cidade que é património de todos, que a todos nos acolhe e envolve numa grandiosidade de beleza cinzenta, colorida por gente que nos saudou simpaticamente, que nos incentivou e apoiou.

Outros houve, como eu, que se lembraram de tempos idos, em que, vivendo como se não houvesse amanhã, calcorreávamos toda aquela envolvente sem querer passar lá pelo meio. Agora não dispensámos. Nem a Cidade, nem tudo o que ela tem para nos dar. O Porto vivido assim tem outra intensidade, tem outra beleza. É como fazer parte de uma orquestra, onde os músicos entram nos tempos correctos, com uma intuição genuína, com uma harmonia melancólica de quem sabe que o fim chega, mas o prazer é o caminho.

Obrigado aos mentores desta corrida/caminhada nocturna pelas zona histórica da minha cidade. 
Obrigado aos que comigo partilharam a responsabilidade de não deixar ninguém para trás, Carlos Natividade e João Paulo Meixedo, dois amigos de um companheirismo inexcedível.

Obrigado a todos os que participaram, com um civismo extraordinário. 

P.S. – Este álbum de fotos do Miguel Oliveira espelha muito do que aqui tentei descrever.
http://www.facebook.com/media/set/?set=a.368806363171040.102124.126867960698216&type=1

domingo, abril 22, 2012

Vasco Batista–O Amador

amador |ô|

adj. s. m.

adj. s. m.

adj. s. m.

1. Que ou o que ama.

2. O que, por gosto e não por profissão, exerce qualquer ofício ou arte.

3. Apreciador.

(Dicionário Priberam)

 

Andamos todos de homenagem em homenagem, justas, aos atletas que elevam bem alto o nome de Portugal, principalmente àqueles que o fazem com enormes sacrifícios, que o fazem por carolice, porque são como nós, amadores.
Nos últimos meses tivemos a alegria de ver o Armando Teixeira, Carlos Sá, Pedro Marques, Telmo Veloso e Susana Simões, com resultados que a todos nos orgulharam, como se um pouco do que eles conseguem fosse também nosso, os que partilhamos com eles as ruas e trilhos de treino e provas.
Todas as homenagens são poucas para o que todos eles conseguem alcançar com tão pouco. Limitam-se a “fazer das tripas coração”, técnica tão nortenha de fazer sem meios aquilo que muitos, tendo-os, não conseguem. São justas.

Mas deixem-me personificar no homem que dá título a este texto, a homenagem justa ao atleta amador.

Vasco

Amador, porque é operário (como ele orgulhosamente diz) de uma multinacional, onde exerce a sua profissão, sendo a corrida um hobbie, um passatempo que apaixonadamente faz, para ocupar tempo livre e para desfrutar de todo o ambiente que normalmente se cria no grupo onde treinamos, e com o grupo com que corremos.
Amador porque não se limita a treinar e seguir escrupulosamente um plano de treinos com vista a atingir um tempo objectivado e estudado por um qualquer treinador, que nem tem. Amador porque faz todas as provas que pode, desde provas de 10 kms até ultra trails onde consegue acompanhar os melhores.
E amador porque, aconteça o que acontecer, nada lhe vai mudar a personalidade de apaixonado e de bem com a vida.

Conheci o Vasco uma semana antes daquela que foi a sua (e minha) estreia na distância mais longa das corridas de estrada, a maratona. Lembro-me como se tivesse sido ontem, ao pormenor, daquele treino. E lembro-me porque o Vasco é daquelas pessoas que marca. Ele e a sua simpática família, sempre disponíveis para os outros.

O Vasco é das pessoas mais humildes que conheço, mas daquelas que têm um altruísmo incontinente, não se limitando a ser quem são sem saírem do seu lugar.
Sempre disponível para ajudar, sempre com uma palavra de incentivo, sempre a aconchegar os outros e sempre com um sorriso de menino cada vez que consegue a foto da ordem com os ditos profissionais. Em todas as fotos onde, surpreendido ou não, aparece, mostra sempre um sorriso rasgado, seja no início, meio ou no auge do sofrimento que algumas a todos nós provocam. Garanto-vos que não há prova onde ele vá que não faça um amigo. Não é capaz de fazer uma prova compenetrado, sem falar com o atleta que vai ao lado, ou sem oferecer o gel, ou incentivando… É assim o Vasco.

Certamente que vos podia dar mais alguns exemplos do atleta amador, daquele que, com sacrifício busca objectivos que não lhe trazem mais que o dever cumprido. Muitos mesmo. Mas o de um homem que trabalha por turnos rotativos de 8 horas, que tanto está a trabalhar de manhã, como à tarde ou no turno da noite (08h-16h/16h-24h ou 00h-08h), e que mesmo assim tem tempo para treinar, descansar, ser marido e pai, e não se esquecer dos amigos… Daqueles que eu conheço, é exemplar.

Impressiona toda a evolução que o Vasco conseguiu em 2 anos de corrida. Completou hoje a sua 5ª Maratona de estrada, com um formidável tempo de 2h51, 105º classificado na Maratona de Madrid.
E com uma regularidade de ritmo que espelha trabalho e muita dedicação.

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É justo que se homenageie o resultado, mas é mais justo que se homenageie o Homem. Que é seguramente um excelente filho, irmão e principalmente pai e marido.

Parabéns ao clã Batista. São uma inspiração.

E parabéns a ti Vasco.

É um orgulho imenso ser teu amigo. Obrigado por retribuíres.

segunda-feira, março 19, 2012

Dia do gajo porreiro

Há pessoas que conhecemos há anos e que se fartam de nos surpreender, pela negativa. Outras há que, apesar do pouco que sabemos delas, temos a sensação que somos como almas gémeas.
Infelizmente tenho vários casos da primeira espécie descrita. São casos perdidos, de gente que julgava com emenda, mas que nunca me deixaram a expectativa da surpresa. Das almas gémeas, tenho a sensação que são as primeiras antes de as conhecermos.
Aqui há uns anos num primeiro dia de trabalho numa determinada empresa, um colega, ao contrário do normal, que seria dar-me as boas vindas e mostrar-me o bom, que logo o mal se encarregaria de se revelar, optou por me alertar para os perigos. Não que o trabalho fosse de risco, nada disso. Tinha era colegas de trabalho. Disse-me: "Cuidado, que o Mundo está cheio de filhos da puta. No início todos sorriem para ti, dão-te palmadinhas nas costas e sorrisos de orelha a orelha, mas quando chega a hora da verdade estão-se a cagar para os princípios ou para o que quer que seja que te tenham dito. Gajo porreiro foi o teu velhote, que te deu de comer e sustentou-te até poderes andar por ti. O resto são abutres à espera que te distraias para te comerem a carne."
Confirmo. Na hora da verdade, a grande maioria olha para o seu umbigo. E burro sou eu que ainda acredito que há gente que não é assim.
No dia do Pai, esta é mais uma homenagem ao que ele me ensinou e ensina. A acreditar que há sempre alguém que, como nós, tem prazer em ser altruísta neste mundo de egocêntricos e invejosos.
Espero que continuem a aparecer as excepções que referi, e que, apesar de tudo, ainda existem.

domingo, março 04, 2012

Conselho de amigo: Aprender a ouvir o corpo!

 

Ontem, enquanto me decidia pelo trajecto a fazer, e já com as sapatilhas calçadas, ouch! Uma dor no fundo das costas, ligeiramente acima do cóccix, impedia-me de me mover sem dor. Melhor, quase me impedia de me mexer. Estava refém de um grupo muscular, que ao que parece, segundo me diz o Paulo Pimentel, o homem da arte de tratar e recuperar lesões, às vezes, com um espasmo contraem e provocam dor e sensação de perda de força na locomoção, ou mesmo impedimento de o fazer. Enfim, não podia correr. E quase não conseguia andar.

Dia inteiro com repetições de colocação de gelo e acima de tudo, descanso. À noite, uma chamada para o Paulo só para confirmar se a terapia era a correcta, e se correr hoje seria ou não uma boa ideia. Sem dor, confirmava que o gelo tinha resolvido o problema, mas o Paulo achava melhor não correr. “Nem pensar”, foi a expressão. Dei-lhe razão e pensei que, finalmente, estava na hora de descansar um fim-de-semana inteiro. Já não me lembrava de estar Sábado e Domingo sem calçar as sapatilhas e sair por umas horas. Ia ser este.

Hoje, já convencido do descanso aconselhado, fiz o que faz qualquer domingueiro sedentário. Fui tomar café e ler o jornal, na esperança que o dia passasse mais rápido. Quando nos abstemos de um vício, tudo nos faz lembrar o dito. E a corrida faz-nos falta, especialmente quando não podemos correr.

Quando saio do café vejo um grupo de gente conhecida, colegas do Porto Runners, a correr contra a chuva miudinha que caía com intensidade e os fustigava directamente e de frente. Atravessei rapidamente a rua e cumprimento duas atletas que iam mais atrás. Claro que não me contive e fui logo calçar as sapatilhas. Nada de água nem isotónico, nem gel, nem impermeável. Apenas uns calções e um corta-vento e fiz-me à marginal, na esperança de que as costas não cedessem. Saí em direcção a Sul, em busca dos meus companheiros de equipa. Pensei em manter um ritmo baixo até encontrar a Marlene ou o Miguel Santos, e depois ajuda-los a regressar ao ponto de onde tinham partido. Sei o quão bem sabe encontrar uma “lebre”, alguém mais fresco que nos possa ajudar a quebrar a rotina de um treino longo, e que nos “imponha” um ritmo, que não nos deixe quebrar. Lá fui eu à procura.

8 quilómetros a Sul, já depois da Granja, decidi regressar. Não tinha visto ninguém, tinha já 45 minutos de treino e algum receio de claudicar, perder o apoio lombar e ter de regressar a passo. Tinha passado, logo no quilómetro inicial pela Fabienne, que regressava a caminhar por estar lesionada, que me dissera que o grupo ia uma hora para Sul e regressava. Ora, entre vestir e arrancar e a conversa com ela, já deviam estar de regresso. Não vi ninguém, fiz inversão de marcha, não literalmente, porque tinha feito uma incursão pelo passadiço e agora voltava para Norte pela estrada junto à linha férrea. Ao chegar à estação da Granja vejo a esposa do Geraldino que me diz que ainda não tinha passado nenhum dos atletas. Olho para trás e vejo a Marlene e o Miguel. Abastecem, comem, bebem e arrancámos. Fui com eles até ao final do treino que tinham programado, 3 horas e cerca de 35 quilómetros. É obra.

Já com a fadiga estampada no rosto e com vontade de parar, a Marlene, depois de eu comentar, “são lixadas as endorfinas”, sorriu. Com um sorriso dócil, apesar do cansaço, e revelador de satisfação por mais um passo concluído, num longo caminho que é a preparação de uma maratona. Estava a terminar o treino longo com Barcelona no horizonte, mas estava, acima de tudo, a concluir mais um enorme desafio, como revelam ser todos os treinos com tamanha exigência física.

São estes treinos que nos ensinam a ouvir e sentir o corpo. Mas são também estes treinos que nos mostram o formidável que é o corpo humano. Apesar de todos os receios, de todos os cuidados que possamos ter e que o corpo nos possa exigir, é a nossa cabeça que o comanda e que faz com que, apesar de tudo, vamos até ao infinito. O prazer de correr, dá razão à nossa insanidade de ouvir o corpo e não lhe ligar nenhum. Nascemos mesmo para correr, é um gesto tão natural como respirar, mas curiosamente são poucos os que experimentam esta sensação de prazer depois de um esforço intenso. A grande maioria é sedentária porque, como eu fiz durante anos, ouve o corpo e dá-lhe razão.

Acabei por fazer 20 km em pouco mais de 1h50. Não me dói nada.

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É sempre desafiante ter estes diálogos com o meu corpo. Ele diz: “Não vás!”, eu vou. Ele diz-me “Para!”, eu acelero. Ele acaba por me entender quando as endorfinas libertadas no cérebro o fazem levitar e surpreendentemente ajustar ao movimento, parando a dor e promovendo o prazer.

Só posso concluir que o devo ouvir, mas não lhe posso dar sempre razão.